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Ode à Famosa Kpixama - 50 anos

08/09/2026 - Por luiz claudio rodrigues de carvalho
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Estimado Amigo Esalqueano, Estimada Amiga Esalqueana,

Encontre um local confortável e se acomode. Leia com calma e atenção este relato. Acostume-se a ele. Ele lhe é familiar. Te asseguro, você não se arrependerá. Você será tomado por momentos lúdicos de extremo prazer. Se puder, abra uma cerveja e tome-a lentamente. Relaxe. Libere sua fantasia e liberte sua imaginação. Procure nos cantos mais escondidos da sua memória as lembranças de suas próprias histórias. Mas lembre-se, qualquer semelhança é mera coincidência.

Se as vistas embaçarem, enxugue-as com as mangas da camisa. Não se preocupe com etiquetas e convenções sociais, o momento não é para isso. Pense que de alguma forma as minhas memórias se encontrarão com as tuas e que, mais do a lembrança de fatos, você reviverá emoções há tempos vividas, agora repaginadas pelas tuas próprias experiências pessoais. É isto que te faz humano.

Faz 50 anos que aconteceu. Manhã ensolarada de março de 1976, Rua Voluntários de Piracicaba, centro da cidade. Lembro-me como se fosse hoje a chegada daqueles três estudantes. Cabeça raspada, olhar curioso, meio assustados, meio confiantes, procuravam um lugar para morar. Talvez o mais apropriado fosse dizer que procuravam um lugar para se abrigar. Amigos de escola e de CPOR, traziam no peito o sonho e a esperança. Dias depois juntou-se a eles uma quarta figura.

Ali construiriam o futuro. Ali eu nasci!!!

A ESALQ na época contava mais de 110 repúblicas estudantis. Uma harmoniosa comunidade de estudantes respeitadores da moral e dos bons costumes. Havia vagas em tantas outras repúblicas. Por que se arriscar em fundar mais uma? O gosto pela aventura e pelo desconhecido animava aqueles corações juvenis.

A vida não foi fácil no começo. Outras repúblicas, despeitadas com o nascimento daquela que se tornaria a mais Famosa, despejavam sua ira em forma de bombas de lixo e fezes, ovos podres e vinagre. Por dois meses, as invasões foram constantes. Buscavam aquebrantar o nascente espírito kpixamano. Não conseguiram. A força e o vigor já tinham deitado raízes.

Desde então, eu me dediquei a proporcionar experiências inesquecíveis. Fui berço de amizades sinceras, de amores intensos, de loucura e de paixão. Todos que a mim acorreram se serviram do mais puro espírito de camaradagem, de liberdade e até de um pouco de libertinagem. Fui palco de insônias intermináveis, de trabalhos inacabados, de livros não lidos, de horários queimados, de longas jornadas em duplas de compras, do caixa que não fechava, da janela que não abria, da porta que não trancava. Fiz da memorização atenta dos nomes dos ex-moradores estampados nas fotos penduradas nas paredes o melhor treino para o intelecto.

Dei oportunidade para a construção de amizades que duram uma vida inteira. Possibilitei a mais plena formação humana que um estudante universitário pode almejar. Plena de sentido, plena de lembranças.

Não pense você, caro amigo, cara amiga, que foram apenas histórias de festas, xurrascos e viagens, grandes amores e paixões arrebatadoras. Não!!! Eu vivi também desencontros, separações e despedidas. Afinal, o ser humano aprende mais pela dor do que pelo amor. É da natureza humana.

Eu me tornei campeã do esporte e da Brahma, da ESALQ Agronomia o restante é poeira. Fui vencida pela trave de basquete, em um cabo de guerra existencial contra a comunidade nipônica. Eu gritei “É tetra!!!! É tetra!!!!” muito antes do Galvão Bueno. Os meus velhinhos saíram da aposentadoria para ganhar o Inter-Repúblicas.

São muitas as histórias que eu tenho para contar.

Lembro-me do dia em que uma roleta russa quase fulminou corações e mentes de umas pobres e incautas damas. Da bota furada de bala que molhou os pés delicados de um Bixo recém entrado. Como chinelas voadoras espantaram moças de reputação ilibada.

Eternas recordações daquele terracinho, de onde meus filhos chegaram mais perto do céu, olhando por cima as luzes da cidade e a curva do Rio Piracicaba. Ali nasceram e morreram grandes amores e rebocadas (quase) secretas.

Acompanhei a transformação de jovens imberbes em homens feitos, profissionais responsáveis e bem-sucedidos, mas que nunca perderam a essência de uma vida universitária plena de humanidade.

Ainda sinto a intensidade da vida estudantil em uma casa icônica, na verdade duas, na verdade muitas. Não gosto das casas novas. Nelas não há mistérios, não há fantasmas, não há histórias. É preciso que as paredes se impregnem com a energia das emoções vividas. As camadas de pó, as teias de aranha nos cantos do teto, os quadros tortos, os beijos de batom nos espelhos, as portas dos armários tortas pelo peso das toalhas penduradas para secar, as pilhas de roupas misturadas. As frases icônicas, pronunciadas nos momentos de êxtase espiritual, que logo são transcritas nas paredes da sala. Isso é vida, um ecossistema que opera em plena harmonia. Só as casas velhas trazem a energia que toca uma república estudantil. Que graça há nas paredes brancas, regularmente pintadas? Elas não trazem a energia da vida. É preciso um pouco de sujeira, na verdade de bastante sujeira, para que as amizades se consolidem.

Para as minhas casas afluíram hordas de bárbaros insanos fantasiados de loucos e cheios de tesão pela vida, em busca de momentos inesquecíveis. E eles são realmente inesquecíveis.

Como esquecer a Fantesão, a catarse coletiva??? A parede suada, a fumaça dos cigarros, o Rock ‘n’ Roll embalando a festa. Litros e litros de batida de cachaça sem éter (há controvérsias) animando a multidão enlouquecida. Naquele quintal inclinado se aglomeraram 1.200 pessoas. Quando a casa ficou pequena para a turba, mudamos para uma chácara e depois para um kartódromo. A preservação do indivíduo cedendo sua primazia à perpetuação da espécie. Quanto altruísmo!!!

Lembro do dia em que o trovador retornou ao lar, depois de já machucado pela vida, e propôs um pacto de sangue: “Tô fudido de grana. Eu toco violão; vocês pagam a cerveja”. Celebrado o pacto, um mês de serenatas extasiantes, retribuídas com amor e dedicação. E ele bebeu bastante.

A cada início de ano, novas turmas, novos Bixos assustados, e a história se repetia. O telefone tocava sem parar. Ninguém se dignava a atender. De repente, passos no corredor. Alguém vinha correndo. Enfim, a célebre e inusitada saudação: “Mordomo da Famosa Kpixama, bom dia!!!” Do outro lado da linha a estrondosa risada. Os pais costumavam ligar na manhã de segunda-feira para confirmar se o filho tinha sobrevivido à primeira noite na República após as férias. Estranho hábito aquele!!! Os Bixos se contorciam, se explicavam; tinham acabado de chegar na República e recebido orientação para atender o telefone daquela forma. Precavidos, achavam melhor cumprir, ainda no abençoado desconhecimento de que “Bixo não acha nada!!!!

Liberdade dos tempos sem celulares!!!

Presenciei jornadas épicas de invasões a lares alheios, respondidas sob o mais estrito preceito bíblico do “Olho por olho; dente por dente”. Guerras santas contra pensões habitadas por infiéis, empunhando instrumentos bélicos inventados pelos chineses, de luzes e trovões, que terminaram com pedidos de clemencia, sobre escombros e fragmentos caninos. Batalhas campais de caroço e casca de melancia, que terminaram em armistícios firmados em longas horas de negociações sob base etílica, em algum bar da Rua do Porto.

Como uma mãe zelosa, que cria seus filhos para a vida e não para si mesma, observei atenta aquele jovem que, inseguro para enfrentar a vida lá fora, por dias perambulou pela casa, despedindo-se de cada quarto, de cada canto da casa, até que, exausto e solitário, subiu no banquinho e gravou na parede a frase de despedida, que resumia o estado de espírito do momento: “E o sonho acabou”. Trancou a porta e saiu pelo mundo, com o coração carcomido pela saudade que já lhe apertava o peito.

E o que dizer da frase estampada no quadro que por anos adornou as paredes da velha casa: “Algún dia en cualquier parte indectiblemente, has de encontrarte contigo mismo y solo de ti depende, que sea la más amarga de tus horas o tu momento mejor”. É árida a solidão do mundo.

É chegado o momento. Permita me apresentar. Eu sou a Famosa Kpixama, República cabeceira da ESALQ Agronomia. Hoje comemoro 50 anos de existência.

Meus filhos entoarão um hino de louvor e glória em minha homenagem, que assim narra a minha trajetória:

Eu moro na Famosa Kpixama

Que na Escola se impõe na baixaria

Amamos as piracicabanas

Pra desgosto de todas as titias

Vivemos nos bares e choparias

Perturbando a nativada

Bebedeira todo dia

Campeões do esporte e da Brahma

A Luiz de Queiroz reverenceia

Nosso trote é amplo e irrestrito

A bixada nos ralamos

Com os vermelhos é no grito

Kpixama República cabeceira

Da ESALQ Agronomia

O restante é poeira

De espírito renovado por novas gerações de jovens guerreiros, olho para frente e vislumbro o horizonte. Imagino como serão os próximos 50 anos. Que histórias eu contarei aos 100 anos de vida? Quem serão os protagonistas? Não tenho a menor ideia, mas repouso tranquila. Deixemos que a vida nos legue novas experiências, tão ricas quanto as que vivemos até agora.

Levo no peito a certeza de que, independente de quem sejam meus novos filhos, eles continuarão a minha história e levarão o meu nome a todos os espaços deste lindo país. Meus cantos ecoarão pelo mundo. A eternidade no coração dos que me conheceram é a minha ambição.

Filhos de uma maternidade insuspeita e inusitada, estes irmãos de coração e de fé percorrerão matas e serras, campos e pantanais, desbravarão sertões, cruzarão continentes e oceanos, subirão montanhas. E todos os anos eles retornarão ao lar para juntos celebrarem a vida. Nestes encontros, esta jovem senhora assistirá, emocionada, a eles dizerem uns aos outros:

“Eu sou Kpixamano”

A eles eu dedico estas palavras.

Piracicaba, 29 de agosto de 2026

Famosa República Kpixama

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